Terapia com Inteligência Artificial: solução mágica ou sintoma contemporâneo?
- Thiago Cunha Melo
- 5 de set. de 2025
- 2 min de leitura
Entre respostas prontas e escuta verdadeira, o que revela a busca por apoio emocional nas máquinas?

Quando a escuta vira algoritmo
Nos últimos anos, cresceu de forma expressiva o uso de chatbots e assistentes com inteligência artificial para simular experiências terapêuticas. Uma pesquisa da OnePoll com mais de 2.000 jovens norte-americanos revelou que 34% preferem desabafar com ferramentas de IA do que com pessoas — e 23% afirmam ter usado IA para lidar com emoções intensas como tristeza, angústia e ansiedade. A promessa de anonimato, disponibilidade imediata e ausência de julgamento parece sedutora num mundo onde tudo é urgente e todos estão sempre ocupados.
Mas o que está em jogo nessa escolha? O que isso revela sobre os sujeitos contemporâneos?
A ilusão do cuidado instantâneo
A psicanálise, desde Freud, ensina que o sofrimento psíquico não se apaga com respostas rápidas. Ao contrário: ele exige escuta, tempo e elaboração. Quando um sujeito busca conforto em uma máquina, algo se desloca da ordem do encontro para a ordem do comando. A palavra deixa de circular como construção e passa a funcionar como senha de acesso a uma solução predefinida.
Lacan, ao dizer que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, aponta para a importância da fala na constituição do sujeito. Mas não é qualquer fala, é a fala endereçada, ouvida, atravessada pela alteridade. É nesse espaço entre o dito e o não-dito que algo pode emergir de novo. A IA, por mais sofisticada que seja, não escuta: ela responde.
Tecnologia como sintoma
Não se trata aqui de condenar o uso da tecnologia. Ela pode ser ponte, abertura, recurso, mas nunca substituto da relação humana que sustenta a clínica. O uso terapêutico da IA, quando buscado como única via, pode ser compreendido como um sintoma social, um modo de lidar com o excesso de sofrimento sem enfrentar sua raiz.
Jacques-Alain Miller, herdeiro do ensino de Lacan e um dos maiores responsáveis por sua sistematização, nos alerta que “a técnica, em nossa época, tende a tomar o lugar da palavra” (L’orientation lacanienne. Choses de finesse, 2008). Em um tempo onde tudo deve ser rápido e eficiente, a oferta de escuta se vê ameaçada por ferramentas que prometem curas automatizadas. A IA, nesse cenário, ocupa o lugar do Outro que responde, mas não escuta, e isso tem consequências clínicas e subjetivas profundas.
A urgência de um encontro real
A terapia é um espaço de elaboração. Ela não se propõe a resolver problemas de forma instantânea, mas a produzir novos sentidos a partir do que se vive. E essa produção se dá na relação. O profissional capacitado é aquele que suporta não saber de antemão, que escuta sem antecipar, que acolhe sem prometer curas mágicas.
Por isso, buscar um psicólogo ou psicanalista é ainda (e talvez mais do que nunca) um gesto urgente. Um ato contra a lógica da resposta imediata. Um mergulho, com companhia, no território muitas vezes desconhecido do que nos afeta.


