Você tem tudo, mas ainda sente que falta alguma coisa?
- Thiago Cunha Melo
- 20 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de set. de 2025
Quando o vazio aparece no meio de uma vida aparentemente “bem-sucedida”

Quando o “tudo” não basta
Você trabalha, paga as contas, se cuida. Talvez até tenha uma boa rede de amigos, um relacionamento, projetos. Mas, ainda assim, em algum lugar silencioso, há uma sensação de que algo está faltando.
Não se trata de ingratidão. Nem de falta de esforço. É apenas um tipo de vazio que parece escapar de qualquer preenchimento.
Na clínica, esse mal-estar é mais comum do que parece. E é justamente porque não tem uma causa clara que costuma ser tão difícil de dizer — e tão fácil de silenciar.
Um silêncio que dói
A lógica do mundo contemporâneo nos ensina que, se temos tudo o que precisamos, deveríamos estar bem. Mas a subjetividade não funciona por essa matemática.
Não é porque tudo está “certo” do lado de fora que, por dentro, as coisas acompanham.
Esse descompasso tem nome na psicanálise: falta estrutural. É a percepção de que nunca teremos uma completude total — e que, ainda assim, seguimos desejando.
Lacan propôs que o desejo não se satisfaz com o objeto em si, mas com o movimento — com o que se constrói na fala, na escuta, no encontro.
O ideal como armadilha
Vivemos cercados por imagens de felicidade ideal, autocontrole, plenitude. Redes sociais, promessas de produtividade, fórmulas de bem-estar. E isso pode nos empurrar para uma cobrança silenciosa: “Por que não estou bem se, aparentemente, tenho tudo?”
Como escreveu Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”
Essa frase ecoa em muitos dos que chegam à análise sem saber exatamente o que está doendo.
Escutar o que falta, sem tentar apagar
A psicanálise não propõe eliminar a falta — propõe escutá-la. Escutar o que ela diz sobre você, sobre seus desejos, sobre as repetições que te aprisionam.
Quinet nos lembra que o sujeito é atravessado por palavras que não disse, por silêncios herdados, por histórias que se repetem até que possam ser elaboradas.
Na análise, o que falta pode ganhar contorno — não para ser resolvido, mas para deixar de paralisar.
O que você sente não precisa ter nome agora
Se alguma coisa dentro de você está pedindo espaço, mesmo sem saber exatamente o quê, talvez esse seja o sinal.
O começo da escuta não exige clareza — exige apenas que você se permita parar, respirar e dizer.
Mesmo que aos poucos. Mesmo que fragmentado. Mesmo que pareça que você tem tudo, mas sinta que ainda falta algo.


